Exposição do artista de 85 anos fica no vão do MASP, na Av Paulista, reúne vinte e cinco toneladas em esculturas, gravuras, desenhos e cerâmicas
O escultor, desenhista, gravador, gravurista e ceramista Abelardo da Hora, de 85 anos, abriu ontem em São Paulo a exposição retrospectiva de suas seis décadas de carreira. Instaladas no vão livre do MASP, na Avenida Paulista, a vernissage atraiu artistas, críticos de arte, jornalistas e um pequena multidão de curiosos. Afinal, é a primeira vez que o museu paulistano realiza uma exposição desse porte em seu térreo. Abelardo trouxe para a capital paulista 25 toneladas em esculturas, além de gravuras das várias fases de sua vida artística.
O nome da mostra – “Amor e Solidariedade” – é uma referência à dualidade da obra de Abelardo, em que figuras esquálidas de retirantes nordestinos convivem, no mesmo espaço, com peças de nus femininos feitas de concreto polido e bronze. “O amor eu dedico às mulheres e a solidariedade ao povo”, explica o artista. Depois de São Paulo, as peças de Abelardo vão para João Pessoa, Recife, Caracas, Paris (Museu George Pompidou) e Bruxelas.
Esculturas e desenhos de Abelardo estiveram ou estão em locais tão distantes quanto Ulan Bator, na Mongólia, no Seminário Metodista do Tenenesse (EUA), no Euro Museu da República Tcheca e no jardim do marchand Abelardo Rodrigues, no Cosme Velho, Rio. O Recife tornou-se seu museu a céu aberto, com figuras expostas em parques, praças e na entrada de edifícios. “Abelardo da Hora define sua arte não como finalidade hedonística e experimental, mas como linguagem-brado e como gesto de trincheira”, afirmou o crítico José Geraldo Vieira.
Histórico
Abelardo da Hora começou sua carreira, no Recife, em um ambiente em que já brilhavam artistas do porte de Vicente do Rego Monteiro (1889-1970) e Cícero Dias (1907-2003), Abelardo cursou Artes Decorativas no Colégio Industrial Professor Agamenon Magalhães, estudou escultura na Escola de Belas Artes de Pernambuco e também concluiu o bacharelado na Faculdade de Direito de Olinda. Mas nunca exerceu a profissão de advogado. Mesmo porque a chance de virar artista profissional bateu-lhe a porta em 1942 quando o industrial Ricardo Monteiro Brennand entusiasmou-se por sua obra. Resultado: entre 1943 e 1945, morou na casa dos Brennand e, nos espaços do Engenho de São João da Várzea, realizou vários trabalhos em cerâmica, jarros florais e pratos com motivos regionais em relevo e terracota.
A partir daí o trabalho de Abelardo da Hora começou a marcar a toda uma geração de artistas e intelectuais de Pernambuco. Tanto em estética quanto em política, teve forte influência nas carreiras de artistas plásticos que desenvolveram trajetórias brilhantes em todo o País. Nesse time estão o amigo de infância Francisco Brennand, além de Wellington Virgolino, Corbiniano, Ionaldo, Gilvan Samico e José Cláudio.
Depois de uma passagem pelo Rio, na década de 40, Abelardo voltou a Pernambuco para realizar, em abril de 1948, uma exposição de esculturas na Associação dos Empregados do Comércio, sob o patrocínio da Prefeitura do Recife. Depois do sucesso da exposição, criou com o artista plástico Hélio Feijó (1913-1991) a Sociedade de Arte Moderna do Recife (SAMR). Em 1952, fundou o Atelier Coletivo, grupo que iria influir profundamente na produção cultural de Pernambuco.
O Atelier Coletivo, como se vê, não trataria apenas de artes plásticas. De seus quadros faziam parte, por exemplo, os escritores Aderbal Jurema (1912-1986) e Hermilo Borba Filho (1917-1976) e o teatrólogo Luiz Mendonça. Mas foi com quadros e esculturas que o movimento cresceu, com a promoção de salões de arte em Pernambuco e participação em outros espaços do País, como o Clube da Gravura de Porto Alegre, dirigido por Carlos Scliar. Da capital gaúcha, a exposição ganhou o mundo. Percorreu todos os países da Europa, a União Soviética, China, Israel e Mongólia.
O atelier não foi o único movimento artístico que Abelardo criou ou ajudou a criar. É o caso do Movimento de Cultura Popular (MCP), quando ele era chefe da Divisão de Parques e Jardins da Prefeitura do Recife na administração de Miguel Arraes, entre 1960 e 1962. O MCP também refletia um sentido altamente engajado e seu objetivo era “ampliar a politização das massas, despertando-as para a luta social”, conforme preconizavam seus participantes. O movimento tinha vários pilares além das artes plásticas, com destaque para a literatura, por meio da participação de escritores, jornalistas e poetas como Ariano Suassuna, Carlos Pena Filho, Aloísio Falcão e Hermilo Borba Filho. Havia até mesmo um trabalho de alfabetização, comandado pelo jovem educador Paulo Freire (1921-1997), e entusiastas no Brasil inteiro – Darcy Ribeiro, o mais exaltado desses admiradores à distância, chegou a prescrever a idéia para todo o País. Mas ai veio o golpe de 1964 e a festa do MCP acabou.
No auge do Movimento de Cultura Popular, em 1962, Abelardo criaria um de seus trabalhos mais pungentes: a série de 22 desenhos de bico-de-pena “Meninos do Recife”, que foi lançada em álbum como nota de apresentação de Miguel Arraes. Um desses desenhos ilustra a edição francesa do livro “Geografia da Fome”, a pedido de seu autor, o médico e professor Josué de Castro (1908-1973). Os desenhos mostram a miséria das crianças de rua, com seus pés descalços na lama, pernas e braços finos, barrigas inchadas, rostos angulosos e magros e vestimentas de molambo.
Depois de 1964, quando seus “Meninos do Recife” foram apreendidos pelos militares – e parte da coleção queimada em frente ao jornal Diário de Pernambuco, junto com exemplares da cartilha de Alfabetização do MCP – Abelardo, já fora do PCB, teve duas outras incursões fora de seu Estado natal: São Paulo e Paris. Nos dois casos, teve que deixar a família no Recife. Na capital paulista foi acolhido pela amiga arquiteta Lina Bo Bardi e seu marido, Pietro Maria Bardi, diretor do Museu de Arte de São Paulo (MASP). O escultor conhecera Lina, no início dos anos 1960, quando ela dirigia o Museu Solar do Unhão, em Salvador. Com ajuda do casal, ele conseguiu emprego como cenógrafo na antiga TV Tupi.
Ao mesmo tempo trabalhava na instalação do Museu Lasar Segall, que seria inaugurado em 1969, e na série de desenhos “Danças Brasileiras de Carnaval”. A pedido de Bardi, também participou com novos desenhos da mostra que abriu a Galeria Mirante das Artes, em 1967, e organizou uma exposição de artistas pernambucanos no Museu de Arte Contemporânea da USP, dirigido por Walter Zanini. A mostra era basicamente um reencontro de Abelardo com alguns seus antigos discípulos – Samico, Maria Carmen, Anchises Azevedo e Wellington Virgolino.
Mais uma vez de volta ao Recife, em 1968, Abelardo mudou radicalmente de vida e foi trabalhar na empresa de pesca de seu irmão Luciano. Diante das perseguições promovidas pelo regime, não tinha condições de sobreviver de arte. Quando a repressão baixou um pouco de tom, Abelardo retomou a atividade artística em sua casa-atelier na Rua do Sossego e ali produziu uma sequência de esculturas de corpos femininos deitados, que balizaria o “outro lado” de sua obra – o toque da sensualidade em cimento e bronze. “Mulher, objeto de Repouso” foi a primeira dessa série. Depois desse período recifense, Abelardo passou uma temporada em Paris, para retornar ao Recife no início dos 1980.
Serviço
Exposição Amor e Solidariedade
De 16 de dezembro a 14 de fevereiro
Local: Vão do MASP
Funcionamento: das 11h às 18h
Curadoria: Renato Magalhães Gouveia
Criação da exposição: Cyro Del Nero

























